Queridos leitores, esta foi a crônica que deu início ao costume de enviar minhas histórias de micos, para os amigos e familiares. Escrevi em 2009 e acho que a maioria de vocês já conhece. Porém se estiverem a fim de rir novamente relembrando, aqui vai:
Dia de Cão
Na terça-feira passada a Patrícia, minha primogênita, estava de folga e me convidou para visitarmos a famosa grife BR (Bom Retiro).
Fiquei um pouco na dúvida porque nas folgas da Patricia tem sempre algo que não sai como o previsto por ela. Exemplo: se aluga um monte de filmes para ficar em casa sem fazer nada, a luz acaba. O mesmo acontece quando resolve dar um trato nos armários ou no físico. Noutras já passou mal do estômago ou intestino e noutras se desgastou no mecânico por conta de conserto do carro.
Colocando em prática meu lado otimista resolvi acompanhá-la no BR. Saímos por volta de onze horas da manhã. A ideia era voltarmos antes do rodízio do carro dela.
A primeira surpresa foi saber que tínhamos que estacionar o carro num lugar mais alto porque caso chovesse muito o BR tem vários pontos de alagamento. Isto inclui disputar espaço físico com ratos e baratas que também tentam um lugar seco. Olhei para o céu e ele não me pareceu muito amistoso, embora estivesse um sol de rachar. Continuamos ...
Como ela já foi produtora de moda por oito meses, conhece o BR canto por canto. Na zona da elite BR almoçamos duas esfihas cada uma , refri e um picolé de frutas. Depois partimos para as compras ( aviamentos, bijouterias, lenços e cintos). Terminamos por volta de quase quatro da tarde.
Ainda no caixa ouvimos o mundo cair lá fora. Era uma p chuva!!!!! Não pensei duas vezes e comprei o maior guarda-chuva/sol que encontrei. O objetivo era não molharmos nem os dedos dos pés. Principalmente o meu que estava usando sandália rasteira.
Na porta da loja surgiu o primeiro imprevisto/visto; havia mais de um metro de água entre a calçada e o meio da rua e outro tanto na outra margem.
Um senhor um pouco atrás de nós, gritou que o cano do esgoto havia estourado. Dava até para sentir o cheiro...
No desespero de atravessarmos a rua antes do esgoto chegar, enfrentamos o "mar de água". Ai minha rasteirinha!Ai meu pé limpo! Ai tenis novo da Patrícia! Bem... antes tenis porque não sai do pé!
Preparados para rir muito? Porque de agora em diante vai ser um mico atras do outro...
Assim que atravessamos a primeira margem, minha sandália saiu do pé e ficou na rua entre os carros. Dei ré bruscamente, o que significa que Pat e guarda chuva continuaram. Calcei a infeliz rasteirinha, dei mais dois passos e ela ficou novamente no asfalto. Voltei e de tanto rir, fiz xixi. Não deu para segurar. Estava há horas sem ir ao banheiro! Com o vento empurrando o longuinho roxo, para o meio das minhas pernas, os dois lados do vestido ( frente e costas) ficaram com duas enormes marcas ovais!
A Patricia me aguardando na outra margem, se curvava de tanto rir e se curvou ainda mais quando contei que estava toda m......pqp! Ainda bem que o carro tem bancos de couro e tinhamos sacola plástica.....
No carro ligamos o rádio. Soubemos que São Paulo estava alagada e em estado de calamidade pública, incluindo o ABC. Excelente notícia para quem esta molhado, mijado, com água de esgoto nos pés e em dia de folga do trabalho! Decidi que o único meio de sobrevivermos à catástrofe era usar de todo o meu senso de humor , caso contrário a Pat iria surtar.
Depois de quase tres horas no mesmo lugar, próximo da Av. Rio Branco, com o carro todo embaçado, vidros escuro fechados , motoqueiros fazendo mil acrobacias entre os automóveis e meu estoque de piadas quase se esgotando, a Pat viu um boteco no outro lado da avenida e saiu em disparada do carro em direção ao bar. Cabe aqui comentar que a Pat com fome ninguém segura. É mais rápida do que a velocidade da luz!
Tranquei todas as portas e começei a distribuir objetos de valor pelo carro todo com medo de arrastão. Ao mesmo tempo, rezava para o trânsito continuar estático. Depois de quase meia hora e nada de Patricia, o trânsito começou a se movimentar. Pulei no banco do motorista , fui encostando e deixando todos passarem, incluíndo um enorme ônibus. Neste instante, ouvi uma forte batida no vidro e gelei. Era a Patrícia com água, sanduiches e chocolates. Entrou e sentou tão de pressa que mal tive tempo de pular para o outro banco. Como castigo pelo susto, sentou num banco todo mijado!
Após quase quatro horas sem praticamente sairmos do lugar a Pat teve a brilhante idéia de ligar para um amigo fotógrafo que tem estúdio próximo da Praça da República, onde ainda estávamos. Para meu azar, ele estava no local. Rezei para que ele estivesse sozinho. Minha vontade era tirar a roupa íntima e jogar para fora da janela com toda a platéia do ônibus, que teimava em ficar em paralelo conosco, assistindo. Resolvi parte do problema despejando colônia acqua Fresca , que sempre carrego comigo em embalagem de bolso, por todo o vestido.
Chegamos no amigo fotógrafo. Ele nos recebeu de braços abertos. Eu procurando ficar longe de qq corrente de vento. Na outra sala, após ele nos fornecer uma toalha e chinelos, demos de cara com um monte de gente. Estavam todos envolvidos com fotos para um ensaio de moda de uma marca. Havia maquiadores, modelos, avó de modelo, produtores de moda e as donas da marca. Duas jovens espertas, falantes e simpáticas. Maravilhoso! Era tudo o que eu precisava naquele momento...
Lembram quando eu falo que o meu santo jamais me abandona? Pura verdade! Depois de um oi bem de longe entrei no banheiro e enquanto isto todos saíram para comer algo no bar ao lado. Aproveitei para lavar o vestido, rosto, pés, sandália e substituí a minha calcinha por uma bermuda de cinco reais que havia comprado. A Patricia viu um ferro e uma tábua de passar, na saleta ao lado e secou em parte meu vestido, enqunto eu aguardava no banheiro. Tudo isto com muitas gargalhadas...
Quando eles voltaram eu estava sentada em meio a bolsas e sacolas, num canto do sofá e de onde só pretendia levantar para ir embora.
Tirando mortos e feridos, até que a visita foi lucrativa. Graças à propaganda da Patricia as donas da marca me convidaram para um próximo trabalho, fornecendo material de arte para o cenário das fotos. Trocamos e-mails e nos despedimos de todos. Eu obviamente, sempre me mantendo um pouco afastada e rodeada de sacolas.
Chegamos em casa quase meia noite. A luz havia voltado fazia pouco tempo. O Gil, meu compreensivo e tranquilo marido, estava dormindo com as cachorras no colo e o chão da cozinha e sala cobertos de pingos de vela. Uma beleza!
Quando estava no banho, coisa de só cinco minutos depois da chegada a luz acabou novamente! A Patricia estava com o cabelo todo molhado, unhas por fazer e precisava abrir a loja, logo cedo, no dia seguinte. Vai ser azarada assim nachina!
Meu primeiro pensamento foi ficar bem longe quando ela estiver de folga do trabalho. Porém ao acordar, encontrei pregado na porta do quarto um bilhete de agradecimento pela companhia , pelo senso de humor e terminando com: Mãe eu te amo! No mesmo instante percebí que passaria tudo de novo só para ter outro bilhete deste!
Cidinha.
Um comentário:
ÓTIMO CIDINHA...A PATRICIA CONTOU ESSA HISTÓRIA...PRECISO REALMENTE TE CONHECER!
VC NEM IMAGINA, QUE SOU MEIO ...E MUITO PARECIDA COM VOCÊ!
UM GRANDE BEIJO!
cÉLIA
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