Muitos dos meus leitores sabem que tenho um sério problema com papéis. Sempre guardo tudo que acho interessante e a mesa vai ficando abarrotada de coisas.
Os jornais lidos vão para a Angel (minha cadelinha/neta). Não que ela goste de leitura de jornal, mas porque foi acostumada desde bebê a usá-los como "banheiro".
Meu vício em papéis é tão grande, que por diversas vezes, ao pegar uma folha de jornal pra descartar, encontro um artigo que já li e não dei muita importância na época, mas que no momento vejo-o com outros olhos. Foi isto o que aconteceu hoje. Um artigo de Rosely Sayão "Mudança de comportamento" - FSP - Caderno Equilíbrio, me fez lembrar do enteado da minha filha mais velha. Ele completou seis anos na semana passada e várias citações do texto, se encaixavam direitinho em seu momento de vida: "Na crise dos seis anos, a criança manifesta sua angústia por meio de rebeldia, dependência e medo..."
"... O primeiro fato a ser lembrado é que essa idade sinaliza uma passagem: a da primeira infância para a segunda. Caro leitor, você acha que é fácil se despedir dos primeiros seis anos da vida?"
Estas frases também me fizeram voltar no tempo. Os seis anos dos meus filhos e depois os meus. Onde eu estava quando meus filhos estavam nesta fase? Lembrei-me, então, que eu também estava num momento de passagem: Da maternidade para a construção da vida material. Em seguida comecei a relembrar os meus seis anos.
Três fatos marcantes aconteceram nesta época: a internação da minha mãe por trinta dias num hospital, concomitante com o atropelamento do meu pai. A minha hospedagem forçada na casa da minha avó paterna e a minha entrada para a escola primária.
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Vou começar contando sobre a internação da minha mãe:
Perto do final do ano, minha mãe internou-se na Santa casa de São Paulo - Capital, para fazer uma cirurgia de bexiga e períneo. Não sei por qual motivo, ela ficou um mês internada entre a cirurgia e o pós cirúrgico. Eu fiquei na casa da minha avó paterna. Meu pai ou minha irmã, que é mais velha doze anos, revezavam-se para me buscar no final do dia para dormir em casa.
Após uma semana da internação da minha mãe, meu pai sofreu um acidente de trabalho . Ele era funileiro e uma farpa de metal entrou no seu olho, perfurando-o. Por sorte não danificou a visão. Só precisou usar um tampão até o olho cicatrizar.
Certo dia, ao visitar a minha mãe no hospital, meu pai não viu o ônibus e foi atropelado. Não quebrou nada mas precisou ficar internado por um tempo que não me lembro. Com pai e mãe no hospital, eu e minha irmã passamos a morar na casa da minha avó Henriqueta, mãe do meu pai. Uma história trágica e cômica ao mesmo tempo. Tranformar em cômico algo que poderia ter sido trágico, é herança de família!
Resolvi desmembrar " Meus Seis Anos" em capítulos curtos, para não ficar muito longa e facilitar a leitura.
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Capítulo I - A casa dos meus avós
A casa da minha avó Henriqueta era uma casa séria, só havia adultos e todos tinham horário rígido para tudo. Havia o horário do café da manhã, do almoço, do lanche da tarde, impreterivelmente às 15 h, do jantar e da ceia. Era uma rotina inquebrável! Moravam com ela um tio solteiro (Juan) e o caçula (José Maria), casado mas sem filhos. Meu avô havia morrido quatro anos antes do meu nascimento. Lembro-me que na minha visão infantil achava que o tio João/Juan era o marido da minha avó. Tinha um certo receio dele e achava-o muito sério e calado. Hoje ele mora na Espanha. Nunca se casou e é o único dos irmãos, oito ao todo, que ainda vive. Qualquer dia quero escrever sobre ele; uma figura fantástica e cheia de energia que só descobri depois de casada.
Perto do final do ano, minha mãe internou-se na Santa casa de São Paulo - Capital, para fazer uma cirurgia de bexiga e períneo. Não sei por qual motivo, ela ficou um mês internada entre a cirurgia e o pós cirúrgico. Eu fiquei na casa da minha avó paterna. Meu pai ou minha irmã, que é mais velha doze anos, revezavam-se para me buscar no final do dia para dormir em casa.
Após uma semana da internação da minha mãe, meu pai sofreu um acidente de trabalho . Ele era funileiro e uma farpa de metal entrou no seu olho, perfurando-o. Por sorte não danificou a visão. Só precisou usar um tampão até o olho cicatrizar.
Certo dia, ao visitar a minha mãe no hospital, meu pai não viu o ônibus e foi atropelado. Não quebrou nada mas precisou ficar internado por um tempo que não me lembro. Com pai e mãe no hospital, eu e minha irmã passamos a morar na casa da minha avó Henriqueta, mãe do meu pai. Uma história trágica e cômica ao mesmo tempo. Tranformar em cômico algo que poderia ter sido trágico, é herança de família!
Resolvi desmembrar " Meus Seis Anos" em capítulos curtos, para não ficar muito longa e facilitar a leitura.
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Capítulo I - A casa dos meus avós
A casa da minha avó Henriqueta era uma casa séria, só havia adultos e todos tinham horário rígido para tudo. Havia o horário do café da manhã, do almoço, do lanche da tarde, impreterivelmente às 15 h, do jantar e da ceia. Era uma rotina inquebrável! Moravam com ela um tio solteiro (Juan) e o caçula (José Maria), casado mas sem filhos. Meu avô havia morrido quatro anos antes do meu nascimento. Lembro-me que na minha visão infantil achava que o tio João/Juan era o marido da minha avó. Tinha um certo receio dele e achava-o muito sério e calado. Hoje ele mora na Espanha. Nunca se casou e é o único dos irmãos, oito ao todo, que ainda vive. Qualquer dia quero escrever sobre ele; uma figura fantástica e cheia de energia que só descobri depois de casada.
Na casa vizinha moravam a Tia Henriqueta com o marido (tio Diego) e quatro filhos adultos. Lá era mais animado, mas eu era proibida de ir até lá sozinha. Próximo, mas necessitando de umas boas pernadas , morava a tia Dolores. Ela destoava um pouco da família. Falava alto e suas conversas eram recheadas de palavrões. Quase tudo para ela era motivo de piada e as reuniões eram sempre regadas com muitas risadas de todos.
Na casa da minha avó, havia um jardim de inverno com poltronas, onde todas as tardes minhas tias se sentavam para conversar, bordar ou fazer trabalhos manuais. Havia um cachorro da raça Colie, era o Dick. Pertencia ao meu tio João/Juan. O Dick e um banquinho de madeira eram os meus únicos companheiros de brincadeiras.Carregava o banquinho no colo, como se fosse uma boneca, o tempo todo. Meus brinquedos haviam ficado em casa e ninguém teve ideia de ir buscá-los! O lado bom de ser criança é a fértil imaginação para se distrair com qualquer coisa, um banquinho com quatro pernas, dá uma excelente boneca!
Na casa da minha avó, havia um jardim de inverno com poltronas, onde todas as tardes minhas tias se sentavam para conversar, bordar ou fazer trabalhos manuais. Havia um cachorro da raça Colie, era o Dick. Pertencia ao meu tio João/Juan. O Dick e um banquinho de madeira eram os meus únicos companheiros de brincadeiras.Carregava o banquinho no colo, como se fosse uma boneca, o tempo todo. Meus brinquedos haviam ficado em casa e ninguém teve ideia de ir buscá-los! O lado bom de ser criança é a fértil imaginação para se distrair com qualquer coisa, um banquinho com quatro pernas, dá uma excelente boneca!
Estava acostumada com liberdade. Podia sair na calçada e brincar na rua sem asfalto com outras crianças. Vivia descalça e visitando os vizinhos que tinham bebes. Adorava bebezinho e adorava ainda mais, raspar as panelas de mamadeira deles. Na casa da minha avó, jamais podia sair sem a presença de um adulto até o portão ou no jardim da lateral da casa. Subir no muro, nem pensar! Hoje entendo a preocupação e responsabilidade deles, mas aos seis anos, sentia-me numa prisão e os via como carcereiros.
Minha irmã trabalhava na farmácia Drogasil. Tinha horários alternados. Numa semana até 19:00 hs e noutra até 22:00 hs. Ela vinha almoçar em casa, mas era bem rápido. Foi nessa época que ela conheceu o meu cunhado. Nos finais de semana, me levava para passear com o novo namorado. Eu era uma "segura vela", gíria da época sobre acompanhantes de um casal de namorados.
Este curto período de tempo, representou uma mudança radical e infeliz em minha vida. Se pudesse escolher teria ficado com a minha avó materna (Joana). Porém naquela época, as crianças desempenhavam um papel secundário na família. Só podiam brincar no quintal, nunca se sentavam à mesa com os adultos e jamais lhes era permitido interferir ou mesmo escutar conversas de adultos. Portanto ninguém havia me explicado por quanto tempo eu ficaria ali e longe dos meus pai
Os dois lados da família é de origem espanhola. Mas suas moradias e modo de vida eram bem distintos. A casa dos meus avós maternos era mais simples, embora grande e com um terreno enorme. Pegava duas ruas e no fundo havia três casas de quarto, sala e cozinha, alugadas. Os inquilinos entravam por uma lateral separada por uma cerca de hibiscos e arame farpado. A mesma cerca também dividia a moradia dos meus avós dos inquilinos. Tinha pomar e galinhas. Meus dois tios solteiros com idade quase aproximada da minha irmã, me paparicavam muito. Dançavam com a minha irmã e tias ao som da antiga Rádio Tupi. Na casa não havia luz elétrica e o rádio só funcionava porque era próximo da torre da Tupi. Era uma casa cheia de filhos , netos e amigos. Minha avó Joana era tímida mas muito divertida, tranquila e amava cozinhar. Tinha sempre latas de 20 litros cheias de doces. Ela amava plantas e tinha um jardim todo florido. Eu era a única neta, entre os muitos primos da minha idade, que podia colher flores do seu jardim. Este era o privilégio por morar longe e só visitá-la uma vez por mês!
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Capítulo II - Rebeldia de uma criança taurina
Este curto período de tempo, representou uma mudança radical e infeliz em minha vida. Se pudesse escolher teria ficado com a minha avó materna (Joana). Porém naquela época, as crianças desempenhavam um papel secundário na família. Só podiam brincar no quintal, nunca se sentavam à mesa com os adultos e jamais lhes era permitido interferir ou mesmo escutar conversas de adultos. Portanto ninguém havia me explicado por quanto tempo eu ficaria ali e longe dos meus pai
Os dois lados da família é de origem espanhola. Mas suas moradias e modo de vida eram bem distintos. A casa dos meus avós maternos era mais simples, embora grande e com um terreno enorme. Pegava duas ruas e no fundo havia três casas de quarto, sala e cozinha, alugadas. Os inquilinos entravam por uma lateral separada por uma cerca de hibiscos e arame farpado. A mesma cerca também dividia a moradia dos meus avós dos inquilinos. Tinha pomar e galinhas. Meus dois tios solteiros com idade quase aproximada da minha irmã, me paparicavam muito. Dançavam com a minha irmã e tias ao som da antiga Rádio Tupi. Na casa não havia luz elétrica e o rádio só funcionava porque era próximo da torre da Tupi. Era uma casa cheia de filhos , netos e amigos. Minha avó Joana era tímida mas muito divertida, tranquila e amava cozinhar. Tinha sempre latas de 20 litros cheias de doces. Ela amava plantas e tinha um jardim todo florido. Eu era a única neta, entre os muitos primos da minha idade, que podia colher flores do seu jardim. Este era o privilégio por morar longe e só visitá-la uma vez por mês!
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Capítulo II - Rebeldia de uma criança taurina
Havia um costume na minha família paterna, que meus pais nunca aceitaram : Dentre várias crianças, uma era escolhida para ser mimada , geralmente a mais quetinha, arrumadinha, delicada e que gostasse de cantar, dançar e aprender curiosidades do tipo criança prodígio. As outras eram ignoradas. Minha irmã teve esta sorte. Eu era o tipo oposto. Inquieta, bagunceira , amava a liberdade e ficar descalça. O "capricho" com as coisas passavam longe de mim. Era do tipo que sempre furava os olhos das bonecas para saber como era por dentro!
Certo dia, estavam todos sentados no jardim de inverno. Meu tio José Maria estava em casa , no portão da rua, observando o movimento. Acho que era fim de tarde. Eu saí pela porta de vidro do jardim de inverno para o quintal da frente, enquanto todos conversavam. Ao sair , sem querer bati a porta. Meu tio foi atrás, gritou comigo e me fez voltar para fechar a porta direito. Voltei e bati a porta com tanta força que os vidros quase explodiram. Saí correndo para a rua e ele atrás. Quando me alcançou, deu um tapa no meu rosto. Eu voltei correndo e chorando, todos estavam assustados no portão. Entrei gritando a todo pulmão: - Odeio vocês! Quero ir para a casa da minha avó Joana. Lá ninguém me bate! Quero o meu tio Dinho e o meu tio Nicacio...odeio vocês! - Dá para imaginar uma crianças taurina e rebelde descontente? Acho que em menos de cinco minutos passados, meu tio já estava arrependidíssimo por me fazer voltar e fechar a porta direito!
Certo dia, estavam todos sentados no jardim de inverno. Meu tio José Maria estava em casa , no portão da rua, observando o movimento. Acho que era fim de tarde. Eu saí pela porta de vidro do jardim de inverno para o quintal da frente, enquanto todos conversavam. Ao sair , sem querer bati a porta. Meu tio foi atrás, gritou comigo e me fez voltar para fechar a porta direito. Voltei e bati a porta com tanta força que os vidros quase explodiram. Saí correndo para a rua e ele atrás. Quando me alcançou, deu um tapa no meu rosto. Eu voltei correndo e chorando, todos estavam assustados no portão. Entrei gritando a todo pulmão: - Odeio vocês! Quero ir para a casa da minha avó Joana. Lá ninguém me bate! Quero o meu tio Dinho e o meu tio Nicacio...odeio vocês! - Dá para imaginar uma crianças taurina e rebelde descontente? Acho que em menos de cinco minutos passados, meu tio já estava arrependidíssimo por me fazer voltar e fechar a porta direito!
Fiquei uma infinidade de tempo, sentada, olhando para baixo e chorando sem parar. Minha avó e tias estavam desesperadas. Tentavam de tudo para me alegrar. Até rabanada, que eu amava, minha avó fez e nada. Chorei até não aguentar mais , meus olhos nem abriam de tão inchados. Não fui para a cama até a minha irmã chegar. Nesta semana ela estava de plantão até as dez da noite e eu estava acostumada dormir antes das oito. Lembro-me da minha alegria quando ela chegou. Só então comi as rabanadas e adormeci.
Hoje, ao lembrar desta "tragédia", morro de rir só em pensar o tumulto que causei na rotina pacata da casa. Foi como jogar merda no ventilador. Sobrou para todo mundo!
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Capítulo III - Papai Noel Não Existe
Logo chegou o Natal. A dona Eunice, uma senhora inglesa, que praticamente havia me adotado como sua companheira de passeios, apareceu para me levar e participar da festa natalina da igreja. - Ela foi uma das figuras mais marcantes da minha infância. Era alta, de quadris enormes, loura e com cabelo comprido sempre preso num penteado que, na época chamavam de banana. Seu gestos eram um tanto estabanados, o que lhe causava muitos tombos pela rua. Apesar de ter ultrapassado em muito a casa dos trinta, era solteira. Seu pai além de professor de ingles, era o fundador da igreja evangélica presbiteriana do bairro e ela dirigia uma escolinha dominical para as crianças no mesmo local. Foi dela que recebi os primeiros livros de leitura. Eram uns livrinhos com o formato dos bichos da capa. Tinha pilhas deles! Também foi na escolinha dela que conheci histórias da bíblia para crianças. Meus pais eram católicos mas permitiam que frequentasse a escolinha . A Dona Eunice, seu pai e sua pequenina mãe (escritora) , eram figuras ímpares no bairro. Um dia vou escrever sobre as muitas histórias que vivenciei com esta família de Liverpool / Inglaterra..
Voltando ao assunto: Na hora do canto natalino, ensaiado pelas crianças e menos por mim por estar fora de casa, minha vela encostou na manga do vestido de nylon de outra menina e pegou fogo. Todos correram para acudir e a mãe dela quase me bateu. Lembro-me de ter ficado muito assustada e totalmente desamparada. Senti uma enorme falta da minha mãe para me proteger. ´Desta festa só gravei esta cena e não sei como e com quem voltei para casa. Continuem lendo porque tem mais "desgraça" pela frente!
Eu, aos seis anos ainda creditava em Papai Noel e cegonha. Toda manhã de Natal, corria para abrir os presentes por ele deixados.Adorava sentir aquele cheiro de plástico novo das bonecas! Porém neste Natal, exceto pela minha tia Dolores que me presenteou com um joguinho de chá e café, não havia presentes do Papai Noel. Eu estava indignada! Sem mãe, sem pai , rodeada de adultos chatos e sem Papai Noel? Para completar a minha irmã em toda a sua sabedoria de dezoito anos, contou que Papai Noel não existia. Nem sei como sobrevivi a esta notícia!
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Capítulo IV - Entrada para a escola primária
O terceiro fato marcante dos meus seis anos foi a minha entrada para a escola: Catastrófica!
Como faço aniversário em Maio, entrei com seis anos na escola primária. Não fiz jardim da infância e fui direto para o primário sem saber escrever nem a primeira letra do meu nome. Lembro-me que no dia da matrícula, subia e descia da rampa de gramado entre a cerca e o prédio da diretoria . Quando a minha mãe foi conhecer todo o espaço externo da escola, fiquei deslumbrava com o tamanho do "quintal" . Estava ansiosa pelo início das aulas e por colocar o uniforme de saia bege, camisa branca , gravata, meia tres quartos branca , fita na cabeça e sapatos vulcabrás pretos!
Hoje, ao lembrar desta "tragédia", morro de rir só em pensar o tumulto que causei na rotina pacata da casa. Foi como jogar merda no ventilador. Sobrou para todo mundo!
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Capítulo III - Papai Noel Não Existe
Logo chegou o Natal. A dona Eunice, uma senhora inglesa, que praticamente havia me adotado como sua companheira de passeios, apareceu para me levar e participar da festa natalina da igreja. - Ela foi uma das figuras mais marcantes da minha infância. Era alta, de quadris enormes, loura e com cabelo comprido sempre preso num penteado que, na época chamavam de banana. Seu gestos eram um tanto estabanados, o que lhe causava muitos tombos pela rua. Apesar de ter ultrapassado em muito a casa dos trinta, era solteira. Seu pai além de professor de ingles, era o fundador da igreja evangélica presbiteriana do bairro e ela dirigia uma escolinha dominical para as crianças no mesmo local. Foi dela que recebi os primeiros livros de leitura. Eram uns livrinhos com o formato dos bichos da capa. Tinha pilhas deles! Também foi na escolinha dela que conheci histórias da bíblia para crianças. Meus pais eram católicos mas permitiam que frequentasse a escolinha . A Dona Eunice, seu pai e sua pequenina mãe (escritora) , eram figuras ímpares no bairro. Um dia vou escrever sobre as muitas histórias que vivenciei com esta família de Liverpool / Inglaterra..
Voltando ao assunto: Na hora do canto natalino, ensaiado pelas crianças e menos por mim por estar fora de casa, minha vela encostou na manga do vestido de nylon de outra menina e pegou fogo. Todos correram para acudir e a mãe dela quase me bateu. Lembro-me de ter ficado muito assustada e totalmente desamparada. Senti uma enorme falta da minha mãe para me proteger. ´Desta festa só gravei esta cena e não sei como e com quem voltei para casa. Continuem lendo porque tem mais "desgraça" pela frente!
Eu, aos seis anos ainda creditava em Papai Noel e cegonha. Toda manhã de Natal, corria para abrir os presentes por ele deixados.Adorava sentir aquele cheiro de plástico novo das bonecas! Porém neste Natal, exceto pela minha tia Dolores que me presenteou com um joguinho de chá e café, não havia presentes do Papai Noel. Eu estava indignada! Sem mãe, sem pai , rodeada de adultos chatos e sem Papai Noel? Para completar a minha irmã em toda a sua sabedoria de dezoito anos, contou que Papai Noel não existia. Nem sei como sobrevivi a esta notícia!
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Capítulo IV - Entrada para a escola primária
O terceiro fato marcante dos meus seis anos foi a minha entrada para a escola: Catastrófica!
Como faço aniversário em Maio, entrei com seis anos na escola primária. Não fiz jardim da infância e fui direto para o primário sem saber escrever nem a primeira letra do meu nome. Lembro-me que no dia da matrícula, subia e descia da rampa de gramado entre a cerca e o prédio da diretoria . Quando a minha mãe foi conhecer todo o espaço externo da escola, fiquei deslumbrava com o tamanho do "quintal" . Estava ansiosa pelo início das aulas e por colocar o uniforme de saia bege, camisa branca , gravata, meia tres quartos branca , fita na cabeça e sapatos vulcabrás pretos!
No primeiro dia de aula, a professora Dona Semira, uma mulher chiquérrima, magra, de saia justa, salto agulha e cabelo louro e preso foi nos buscar, já em fila no páteo, para conhecermos a sala de aulas. Éramos só meninas, somente no terceiro ano é que surgiu a novidade de classe mista. Assim que entramos ela colocou as menores nas primeiras filas de carteiras e as maiores no fundo. Eu fiquei bem na frente! Ela colocou umas bolinhas na lousa e disse que era para copiarmos no caderno. Eu, inicialmente, fiquei totalmente envolvida com a tarefa. Depois de umas cinco linhas, já estava enjoada. De repente, a professora deu com uma comprida régua de madeira na mesa, para pedir silêncio. A classe toda estremeceu e todas as crianças emudeceram imediatamente.
Depois de um tempo, no mais completo silêncio e eu já de saco cheio de fazer bolinhas no caderno, soou um sino estridente. Era o aviso para o recreio. Ninguém se mexeu porque acho que não fazíamos a menor ideia do que era recreio.A professora, que estava o tempo todo andando de carteira em carteira, observando o desenvolver de cada aluno, avisou que todos podiam sair para comer o lanche.Era para formar fila. Os que não tivessem terminado a lição, não poderiam sair. Nem ouvi esta última parte. Levantei e segui as demais colegas. Quando cheguei na porta fui barrada. A professora me fez voltar para terminar a lição. Disse que eu poderia sair assim que terminasse tudo " uma página cheia de bolinhas". Acho que eu era a única lerda da turma, porque só eu não havia terminado a lição das malditas bolinhas. Todos saíram, incluindo a minha amiga e vizinha Nancy. Fiquei sozinha sem entender nada do que estava acontecendo. Assim que a professora saiu da sala, fiquei apavorada e saí correndo. Achei um buraco na cerca de alambrado e fugi atravessando uma avenida e correndo até chegar em casa.
Depois de um tempo, no mais completo silêncio e eu já de saco cheio de fazer bolinhas no caderno, soou um sino estridente. Era o aviso para o recreio. Ninguém se mexeu porque acho que não fazíamos a menor ideia do que era recreio.A professora, que estava o tempo todo andando de carteira em carteira, observando o desenvolver de cada aluno, avisou que todos podiam sair para comer o lanche.Era para formar fila. Os que não tivessem terminado a lição, não poderiam sair. Nem ouvi esta última parte. Levantei e segui as demais colegas. Quando cheguei na porta fui barrada. A professora me fez voltar para terminar a lição. Disse que eu poderia sair assim que terminasse tudo " uma página cheia de bolinhas". Acho que eu era a única lerda da turma, porque só eu não havia terminado a lição das malditas bolinhas. Todos saíram, incluindo a minha amiga e vizinha Nancy. Fiquei sozinha sem entender nada do que estava acontecendo. Assim que a professora saiu da sala, fiquei apavorada e saí correndo. Achei um buraco na cerca de alambrado e fugi atravessando uma avenida e correndo até chegar em casa.
Quando cheguei em casa, quase apanhei. Só fui salva porque, em seguida apareceu a minha amiga Nancy. No dia seguinte, fui para a escola arrastada. Minha mãe chamou a diretora para conversar. Um servente me levou até a fila da classe, no pátio da escola. Todos cantavam com a regência da professora de orfeão, Dona Carminha. Eu estava apavorada e com muito medo da professora com a sua enorme régua. Quase fugi novamente, mas segui a fila até a classe. A aula começou e, para minha felicidade, a professora ignorou a minha fuga no dia anterior. Minha amiga de tanto medo, não pediu para ir ao banheiro e fez coco na calça. Foi terrível! Por causa disto ela foi motivo de risos por muito tempo. Acho que foi aí que aprendi a me defender, batendo em qualquer colega que me provocasse. Virei uma espécie de Mônica com Magali. Era magra e comilona como a personagem Magali, do Maurício de Sousa e briguenta como a Mônica.
Já imaginaram situações como estas, muito comuns na época, em tempos atuais? Nem dez anos de terapia daria conta de resolver, meu tio seria punido por maus tratos, a professora processada e minha amiga vítima de bulling!
No entando, depois de dois meses , todas disputávamos o direito de levar o material da professora na saída como se ela fosse uma rainha. Naquele tempo (l960), o professor era um deus para seus alunos!
FIM
Cidinha.
4 comentários:
ÓTIMA MEMÓRIA! BELAS LEMBRANÇA.
ÓTIMA MEMÓRIA! BELAS LEMBRANÇA.
Este comentário foi por email em resposta ao meu pedido de desculpas por não utilizar " Correções gramaticais".
Oi Chequetézima,
adorei a nova cronica, porém você está TERMINANTEMENTE PROIBIDA de perder a 'sua es(x?)pontaneidade' ao solicitar correções ortográficas ou gramaticais; vc é a Cidinha, é 'você' conversando conosco, nada de glamourisar e perder a essência, combinadas?
Carinhos
arlete.
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