por Aparecida Orozco Corrêa, sexta, 2 de setembro de 2011 às 03:05
Ontem, lendo a FSP, caderno Ilustrada, vi uma reportagem sobre os 37 cromos, esquecidos pelo tempo, sobre o incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo. Imediatamente voltei no tempo e relembrei exatamente como recebí a notícia.
Na época eu e Gil morávamos no RJ. No dia fatídico, eu estava com uma baita cólica menstrual e passei o dia na cama sem ligar a tv. Não tinhamos telefone fixo e celular não existia...O Gil chegou à noitinha, todo apressado e surpreso por eu não estar pronta para partirmos para São Paulo. Foi aí que fiquei sabendo do incêndio.Enquanto arrumava as coisas, via na tv as imagens e os comentários. Tudo em branco e preto!
Tinhamos vários amigos trabalhando no prédio, incluindo a minha amiga Marilene. Pegamos um ônibus na rodoviária e partimos o mais rapido possível para a casa dos meus pais. Foi um alívio saber que a Marilene estava bem e em casa. Nossos outros amigos e colegas de trabalho do Gil, também.
O incêndio foi no dia primeiro de Fevereiro de 1974. Interessante que só agora me dei conta do dia da minha última regra antes de engravidar da Pat...Fiquei grávida em Fevereiro e ela nasceu em 18 de Novembro de 1974 .
A minha amiga, Marilene, foi resgatada pelos bombeiros, de helicóptero, no telhado do prédio. Ela estava, o tempo todo, com duas amigas de braços dados. Ambas morreram no incêndio, infelizmente.Na corrida para fugir das labaredas, uma delas caiu na lage. A temperatura da lage derreteu bronze. Isto significa que estava mais de 900 graus centígrados! A outra se atirou ou caiu do prédio. A Marilene salvou-se porque ficou calma e lúcida o tempo todo. Ficou com um grupo que se revesava para respirar, deitando no chão embaixo das pernas de outro colega. Minha amiga disse que quando era a sua vez de deitar, ela se imaginava numa praia e o calor era o sol. Foi assim que manteve o equilíbrio emocional o tempo todo. Salvou até a bolsa com os documentos!
No edifício funcionava a Crefisul, ligada ao City Bank (Citibank). Se o Gil não tivesse sido transferido temporariamente para o Rio, poderia estar no prédio neste dia...
Dois anos antes, teve o incêndio no edifício Andraus. Assisti tudo pela janela do escritório da Braswey, na rua São Bento, onde trabalhava. Foi terrível! Vi "roupas" sendo atiradas do alto. Mais tarde soube que essas "roupas" eram pessoas.
Eu trabalhava no 15o andar do prédio que ficava na rua São Bento e tinha saída para a rua Casper Líbaro, ao lado do prédio Mertinelli. Lembro-me de uma secretária da diretoria que levou uma corda para o trabalho por prevenção. Todos ficamos um bom tempo apreensivos com a possibilidade de um incêndio no nosso prédio.
O incêndio destes dois edifícios, num prazo de dois anos, foi muito marcante. Quase todos que trabalhavam nos edifícios do centro de São Paulo, ficaram preocupados com a precariedade na questão da segurança contra incêndios nos prédios do centro de São Paulo.
Depois de reformado, a Crefisul voltou a funcionar no Edifício Joelma. No Citi havia comentários de "assombração" no Joelma. Diziam que tarde da noite, os elevadores subiam sozinhos e desciam, sem ninguém dentro.
Anos depois, numa brigada de incêndio aqui no prédio onde moro, os bombeiros passaram alguns slides sobre o incêndio dos dois edifícios. Fiquei chocada com as cenas! Fui convocada no lugar do Gil. Não tive como negar. Os bombeiros já tinham vindo umas duas vezes no prédio e ninguém descia. As mulheres predominaram o grupo. Eramos oito mulhres e dois homens.
Na mesma semana, após a brigada , passou na tv o filme "Inferno na Torre". Não assisti no cinema porque não gosto de filmes deste tipo. Fico deprimida em pensar que não somos nada diante de uma catástrofe! Mas depois das imagens que vi, na brigada, resolvi assistir. Fiquei bem impressionada e memorizei cada informação que os bombeiros passaram na brigada do prédio. Posteriormente vou contar um fato cômico e quase trágico que vivi no Rio de Janeiro com o Gil, por causa de tanta informação recente sobre como agir em caso de incêndio.
Ontem, lendo a reportagem, fiquei imaginando se na época, existisse celular...
