Oi pessoal, aqui esta a história que comentei ,ontem, na nota sobre os cromos do incêndio do edifício Joelma em 1974.
Só para relembrar: Fiz a brigada de incêndio, por livre e espontânea pressão da administração do prédio onde moramos, lembram? Foi mais ou menos há uns 15 ansos atrás. Depois em seguida, conforme comentei, chutei o balde e assisti ao filme "Inferno na torre". Fichinha diante das imagens mostradas pelos bombeiros dos incêndios do Andraus e do Joelma, no centro de São Paulo.
O Gil ainda trabalhava no banco Nacional e fomos ao RJ para uma série de jantares da diretoria que acontecia todo final de ano. Todas as esposas dos diretores , vice-presidentes e presidentes, incluindo a família Magalhães, participavam. O jantar principal era sempre em hotel 5 estrelas e com a presença de toda a família Magalhães. O Airton Senna sempre estava presente e havia um show com um cantor ou cantora convidados. Tirando a formalidade do jantar com os Magalhães, os demais eram mais descontraídos. Eu, nesta época, tirava uma semana de madame!
Certa vez, num desses encontros, ficamos hospedados no Hotel que o Gil já estava, no centro do Rio. Eramos uns cinco casais da diretoria do banco e combinamos de sair juntos do hotel para o jantar. O encontro seria no hall de entrada, junto ao bar. Eu saí de São Paulo já arrumada e maquiada. Só precisava trocar de roupa no hotel e colocar os acessórios.
Cheguei uma hora antes do horário combinado. Guardei as coisas no armário, me vesti e quando estávamos para sair, senti um cheiro de coisa queimando. Como vocês sabem meu nariz é animal para detectar cheiros. Fui até a janela e quando o Gil fez mensão de abrí-la, lembrei no ato das informaçãoes dos bombeiros : Jamais abra as janelas, em caso de suspeita de incêndio, porque o oxigênio atrairá as chamas!
Corri ao encontro do Gil gritando: _ Nâo! Jamais abra as janelas em caso de suspeita de incêndio! _ Ele me olhou espantado e irônico mas obedeceu. Estávamos no décimo andar, eu colei o rosto no vidro e não consegui ver nada na rua. O cheiro estava aumentando. O Gil interfonou para a recepção do hotel e nada de alguém atender. Eu já estava em pânico e recordando cada instrução dos bombeiros. Comentei que se a recepção não estava atendendo é porque o incêndio era em baixo. Talvez no térreo...
Saímos do quarto, foi a vez do elevador: _ Não! Jamais pegue elevador em suspeita de incêndio! _ Fomos de escada e o cheiro mais forte ainda. Descemos dois andares e o Gil lembrou que não havia trancado a porta. Eu desesperada gritei: _ E daí, podem levar tudo! Minhas jóias, dinheiro, cheques, cartão, etc... o importante é sobrevivermos!
O Gil pegou firme no meu braço e voltamos. Assim que chegamos no nosso andar a fumaça já havia inundado tudo. O Gil ficou surpreso e acreditou no meu bom faro e intuição. Mesmo assim conferiu se a porta estava fechada!
Voltamos para as escadas, a cada andar que desciamos vinha um medo enorme de encontrar fogo. Eu rezava e ditava instruçãoes ao mesmo tempo. O Gil manteve a calma o tempo todo. Só que mudo! Era algo mais ou menos assim:
_ Meu Deus não permita que a gente morra queimado. Pode ser de qualquer outra coisa, menos fogo! Ai minha Nossa Senhora da Aparecida, nos salve do fogo! - Junto com: _ Xu, não abra nenhuma porta sem antes colocar a mão para ver se esta quente... Antes de abrir devemos ficar atrás da porta e depois andar arrastados pelo chão porque a visibilidade é de dez centímetros apenas , o ar respirável também! Cadê os chuveirinhos que deviam estar nas escadas? E porque ainda não chegou nenhum bombeiro até aqui? Acho que o fogo é mais em baixo, meu Deus, eles não conseguem chegar até nós! E lá ia eu entre rezas e regras!
Neste momento lembrei-me de uma cena do filme em que um casal sai do quarto do hotel, arrumadíssimos para a festa de inauguração do prédio na cobertura e acabam morrendo queimados tragados pelas labaredas... Rezava para não sermos uma cópia desta cena do filme... Descia sem parar de falar um minuto sobre todas as regras básicas que deveríamos seguir e o Gil mudo, me segurando pelo braço e me arrastando escada abaixo, como se eu fosse uma criança. No primeiro andar encontramos uns bombeiros. Era um princípio de incêndio mesmo, foi na cozinha mas já estava controlado. Ufa! Meu corpo interio amoleceu. Descemos esbaforidos até o térreo. Fomos os únicos a usar as escadas!
Lá chegando, nossos amigos estavam calmos , alegres e bebericando uns drinques. Quando perguntamos se eles tinham sentido cheiro de fumaça eles disseram que sim mas nem se ligaram na possibilidade de ser um incêndio. Desceram normalmente pelo elevador. Eu estava suada, descabelada e em pânico! A sorte foi que, antes de sair do quarto, não lembrei da instrução básica de molhar umas toalhas de banho e colocar sobre o corpo! Se tivesse lembrado, já imaginaram como estaríamos para o jantar?
Durante boa parte do jantar o assunto foi sobre incêndio nos prédios do Rio. Eu quase não escutava nada e estava ainda anestesiada pelo susto. Quando voltamos para o hotel, olhei em volta e vi, um mundo de cortinas de tecido, colchas de babados e mil coisas que facilmente queimariam propagando o incêndio rapidamente por todo o quarto. A janela não tinha para peito e talvez nem fosse fácil de abrir por causa do ar condicionado. Havia, sim, chuveirinhos no teto. Será que funcionavam só com a fumaça entrando?
A fumaça logo invadiu o corredor onde estávamos porque subiu pelas entradas de ar condicionado. Foi incrível a rapidez entre sentir o cheiro e ver a fumaça. Não demorou mais de dois minutos entre descer dois andares e subir de volta!
Bem.. De duas coisas eu tenho certeza: Em caso de vida ou morte que se danem os bens materiais e, com certeza alguém me daria uma pancada na cabeça para parar de falar!
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